Uso de herbicidas no Brasil cresce 128% em 11 anos e acende alerta sobre resistência ao glifosato

Redação 24/07/2025
Estudo da Embrapa revela dependência crescente de insumos químicos e falta de alternativas sustentáveis no controle de plantas daninhas
O consumo de herbicidas no Brasil mais que dobrou entre 2010 e 2020, saltando de 157,5 mil para 329,7 mil toneladas de ingredientes ativos por ano — um crescimento de 128%, de acordo com estudo da Embrapa Meio Ambiente, em parceria com a Universidade de Rio Verde (UniRV). O número contrasta com a expansão da área agrícola no período, que foi de apenas 24%.
A principal causa para o aumento é a resistência crescente das plantas daninhas ao glifosato, o herbicida mais utilizado nas lavouras brasileiras. Com a redução da eficácia da molécula, agricultores passaram a utilizar novas fórmulas químicas em maiores quantidades, evidenciando a falta de opções sustentáveis como bioherbicidas ou métodos físicos de controle.
Moléculas alternativas disparam
O uso de outras moléculas de herbicidas disparou no período analisado. O cletodim teve crescimento de 2.672%, seguido de triclopir (953%), haloxifope (896%), diclosulam (561%) e flumioxazina (531%). Herbicidas já amplamente usados também cresceram: glufosinato (290%) e 2,4-D (233%).
“Esses números mostram uma tentativa dos produtores de compensar a perda de eficácia do glifosato mantendo o controle químico como solução principal”, afirma Robson Barizon, chefe-adjunto de Pesquisa da Embrapa Meio Ambiente e coautor do estudo.
Resistência exige mais insumos e eleva riscos
O estudo identificou 20 casos de resistência ao glifosato no Brasil, envolvendo 12 espécies de plantas daninhas, como capim-amargoso, buva, caruru e capim-pé-de-galinha. Algumas plantas voluntárias de milho transgênico resistente também se tornaram pragas em lavouras de soja.
Para lidar com a resistência, os produtores têm aplicado misturas de herbicidas ou feito pulverizações sequenciais, o que aumenta os custos, o risco ambiental e a necessidade de conhecimento técnico.
“O glifosato continua sendo útil, mas já não funciona sozinho. Ele precisa ser complementado com outros produtos, o que encarece o manejo e aumenta a carga química no ambiente”, explica o pesquisador Sergio Procópio, também da Embrapa.
Falta de alternativas sustentáveis
A pesquisa destaca que o mercado brasileiro ainda carece de alternativas sustentáveis, como bioherbicidas e métodos físicos (laser, água quente, descargas elétricas, etc.), mesmo com o avanço das pesquisas. O predomínio do controle químico, segundo os autores, reflete tanto sua eficácia quanto a ausência de políticas públicas e incentivos para tecnologias alternativas.


