Dólar sobe 0,37% e encerra sequência de quatro quedas, com cautela no exterior e incertezas sobre China e EUA

Redação 21/10/2025
Após quatro pregões consecutivos de queda, nos quais acumulou desvalorização de 1,81%, o dólar voltou a subir nesta terça-feira (21), acompanhando o movimento da moeda americana no exterior. O avanço reflete a postura mais cautelosa dos investidores diante das incertezas nas negociações comerciais entre China e Estados Unidos e da continuidade do shutdown do governo norte-americano.
Pela manhã, a cotação chegou a tocar R$ 5,40, mas perdeu força ao longo da tarde, com ajustes e realização de lucros intradia, chegando a operar pontualmente em ligeira baixa. No fechamento, a moeda registrou mínima de R$ 5,3706, máxima de R$ 5,4050 e encerrou a R$ 5,3906, alta de 0,37%.
No acumulado de outubro, o dólar sobe 1,27%, mas ainda recua 12,78% no ano, o que coloca o real como a moeda de melhor desempenho entre as divisas latino-americanas em 2025.
Incertezas externas e volatilidade
Durante evento na Casa Branca, o presidente dos EUA, Donald Trump, fez declarações contraditórias sobre um possível encontro com o líder chinês Xi Jinping. Após afirmar que se reuniria com o presidente da China em duas semanas, na Coreia do Sul, Trump voltou atrás, dizendo apenas que as negociações seguirão “bem” e que as “tarifas são uma questão de segurança nacional”.
O economista-chefe da Western Asset, Adauto Lima, avalia que não houve um gatilho específico para a alta da moeda, mas que o “ambiente global segue cercado por incertezas crescentes, o que aumenta a volatilidade dos ativos”. Segundo ele, qualquer episódio de tensão envolvendo a China tende a pressionar as moedas latino-americanas, como ocorreu no dia 10, quando Trump ameaçou impor tarifas de 100% aos produtos chineses.
“O real está até se comportando bem hoje, provavelmente por conta do diferencial de juros entre Brasil e exterior. O quadro fiscal doméstico é ruim, mas não vejo questões internas afetando o câmbio neste momento”, afirma Lima.
Influência limitada de Haddad
Operadores relataram pouca influência das declarações do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sobre o câmbio. Em entrevista à GloboNews, Haddad afirmou que a Casa Civil encaminharia ao Congresso dois projetos alternativos à Medida Provisória (MP) que elevaria o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras).
Um dos textos prevê revisão de despesas, com impacto de mais de R$ 15 bilhões, e o outro aumento de arrecadação, incluindo regras mais rígidas para o seguro defeso, limitação de compensações tributárias, taxação de bets e elevação da CSLL para fintechs.
Cenário global: dólar forte e ouro em queda
O índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a seis moedas fortes, subia 0,40% no fim do dia, aos 98,960 pontos, após atingir máxima de 98,979 pontos. O iene japonês teve queda superior a 0,80%, pressionado pela eleição da ultraconservadora Sanae Takaichi como primeira-ministra do Japão.
A alta global do dólar coincidiu com uma forte queda de mais de 5% no preço do ouro, a maior em um único pregão em 12 anos. Segundo analistas, o movimento reflete realização de lucros após o rali recente do metal e recomposição de posições em dólar e Treasuries.
Fed e “apagão” de dados
Lima ressalta que o shutdown do governo dos EUA dificulta a leitura do cenário econômico e mantém os investidores “em compasso de espera” por novos sinais do Federal Reserve (Fed).
Apesar da expectativa de inflação elevada em setembro, cuja divulgação está mantida para o dia 24, o economista acredita que o Fed deve reduzir novamente os juros em 25 pontos-base no fim do mês.
“A visão mais dovish dentro do Fed deve prevalecer. Eles devem cortar os juros agora e avaliar depois se é possível seguir com novas reduções”, afirma Lima. “Por ora, há certa benevolência com moedas emergentes — e no caso do real, ainda temos uma Selic em 15%, o que ajuda a equilibrar o câmbio.”


