Em menos de três meses, Maternidade Cândido Mariano acumula denúncias de morte e negligência em atendimentos a gestantes


Redação 21/10/2025

Casos de Levi e Ravi, bebês que nasceram mortos, reacendem debate sobre falhas e demora no atendimento na principal maternidade de Campo Grande.

Em menos de três meses, a Maternidade Cândido Mariano, em Campo Grande, voltou ao centro de graves denúncias de negligência e descaso no atendimento a gestantes. Em 2025, a unidade já esteve envolvida em dois casos de bebês que nasceram mortos e em outro episódio, ocorrido em março, quando uma jovem de 19 anos quase perdeu o filho após peregrinar por três maternidades em busca de atendimento.

Relatos de demora no atendimento, mães em sofrimento e falta de sensibilidade médica têm levado famílias a procurar a imprensa para denunciar o que chamam de violência obstétrica.

Primeiro caso: gestante peregrina por três maternidades

A primeira denúncia ocorreu em março deste ano. Segundo relato da mãe, a filha de 19 anos passou por três maternidades, incluindo a Cândido Mariano, sem conseguir realizar uma cesariana, mesmo com fortes dores e o desejo de não seguir com o parto normal.

Os hospitais alegaram falta de vagas e afirmaram que a indução do parto só poderia ser feita após 41 semanas de gestação, contrariando a legislação que garante à gestante o direito de escolher o tipo de parto a partir da 39ª semana.

Após horas de sofrimento, a jovem foi novamente levada à Cândido Mariano, na noite de 28 de março, e finalmente submetida à cesariana. O bebê nasceu bem, mas o caso quase terminou em tragédia.

Caso Levi: bebê morre após demora na condução do parto

No dia 27 de julho, o pequeno Levi, filho de Darlene Maciel, 27 anos, e Erick de Souza, nasceu morto após a família alegar demora no atendimento durante o trabalho de parto, também na Maternidade Cândido Mariano.

Segundo relato, Darlene deu entrada na unidade por volta das 2h30, sentindo fortes dores. Às 5h, os médicos constataram três centímetros de dilatação e pediram que ela aguardasse a troca de plantão, prevista apenas para as 7h. Nesse intervalo, o bebê ainda apresentava batimentos cardíacos, mas, quando a mãe deixou de sentir os movimentos, nenhuma medida imediata foi adotada.

Somente por volta das 9h ela foi encaminhada ao centro cirúrgico, onde os médicos constataram que Levi havia evacuado dentro do útero — sinal de sofrimento fetal agudo — e estava morto.

Darlene sofreu hemorragia intensa, precisou ter o útero retirado e ficou impossibilitada de ter outros filhos. O laudo apontou parada cardíaca, sofrimento fetal agudo e descolamento de placenta oculto como causas do óbito.

À época, a Maternidade não se manifestou sobre o caso.

Caso Ravi: parto com denúncias de violência e desumanidade

Menos de três meses depois, em 16 de outubro, o bebê Ravi também nasceu morto na Maternidade Cândido Mariano, em um parto cercado por denúncias de violência obstétrica e tratamento desumano.

Conforme o boletim de ocorrência, a mãe, Cláudia Batista da Silva, entrou em trabalho de parto no dia anterior, às 11h, mas só foi encaminhada à sala de parto às 17h30, mesmo com batimentos cardíacos normais do bebê.

O parto, no entanto, só foi iniciado na manhã seguinte, quando ela ainda tinha seis centímetros de dilatação, número insuficiente para o parto normal. Durante o procedimento, os médicos teriam pedido ao marido, Eduardo de Souza, que ajudasse a “puxar” o bebê.

Ele relatou que a cabeça do filho saiu deformada e com coágulos, e que o corpo foi entregue de forma brusca e fria à mãe. Após 40 minutos de tentativas de reanimação, o óbito foi confirmado.

Eduardo afirmou ainda que um dos profissionais chegou a dizer:

“Vocês são jovens, podem fazer outro.”

A frase, considerada cruel e desrespeitosa pela família, acentuou o sentimento de indignação e revolta.

Posicionamento da maternidade

Em nota, a Maternidade Cândido Mariano negou falhas e afirmou que o caso de Ravi envolveu uma distócia de ombro, complicação obstétrica “grave e imprevisível”.

A instituição lamentou a morte e garantiu que não identificou indícios de negligência, informando que o caso será apurado internamente pelas comissões de ética e de óbito.

Até o momento, a unidade não se manifestou sobre o caso de Levi nem sobre a denúncia registrada em março. Em relação à morte de Ravi, a maternidade reafirmou que “não houve falha no atendimento”, mas que o episódio será analisado internamente.

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