UE barra carnes, mel e ovos do Brasil e exige novas garantias sobre uso de medicamentos em animais

Redação 04/09/2026
A União Europeia suspendeu, desde quinta-feira (3), a entrada de carnes bovina, suína e de frango, além de mel, pescados e ovos produzidos no Brasil. A decisão vale para os 27 países do bloco e pode representar um impacto de até US$ 2 bilhões por ano nas exportações brasileiras.
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Segundo as autoridades europeias, o motivo da restrição está relacionado aos mecanismos utilizados pelo Brasil para controlar e rastrear o uso de antimicrobianos na produção animal. A medida, porém, não foi tomada após a identificação de contaminação ou problemas sanitários em cargas brasileiras.
O governo brasileiro afirma que as normas nacionais já estabelecem restrições ao uso dessas substâncias como promotores de crescimento e tenta demonstrar à UE que os procedimentos adotados no país atendem aos padrões exigidos pelo bloco.
Produtos atingidos
A suspensão envolve seis grupos de produtos: carne bovina, carne de frango, carne suína, mel, pescados e ovos. Entre eles, os setores de bovinos e aves estão entre os que podem sofrer maior impacto, devido ao volume de vendas destinado ao mercado europeu.
As regras da UE permitem o uso de antimicrobianos para tratar doenças nos animais, mas proíbem a utilização dessas substâncias com o objetivo de acelerar o crescimento. O bloco também restringe o emprego, na criação de animais, de medicamentos considerados essenciais para o tratamento de infecções em seres humanos.
Brasil contesta decisão
A principal divergência está nos mecanismos de fiscalização e rastreabilidade. A avaliação europeia aponta que o sistema brasileiro não apresentaria garantias suficientes para demonstrar que as exigências são cumpridas ao longo da cadeia produtiva.
O governo brasileiro discorda e argumenta que a legislação do país segue padrões internacionais e já estabelece regras para limitar o uso desses medicamentos.
A suspensão também não significa que os produtos brasileiros tenham sido considerados impróprios para consumo. As empresas continuam podendo comercializar seus produtos em outros países onde permanecem habilitadas.
Carne bovina concentra maior impacto
Entre os produtos afetados, a carne bovina tem peso significativo nas relações comerciais com a Europa. Em 2025, o Brasil exportou aproximadamente US$ 1,7 bilhão em carne bovina para o mercado europeu.
Apesar de a UE representar uma parcela relativamente pequena das exportações brasileiras do setor, o mercado é considerado importante por adquirir cortes de maior valor. Por isso, uma eventual transferência imediata dessa produção para outros destinos pode ser complexa.
O impacto total da suspensão, considerando todos os produtos envolvidos, é estimado em até US$ 2 bilhões anuais.
Brasil apresenta novas medidas
Desde o anúncio da restrição, representantes brasileiros mantêm negociações com as autoridades europeias. Entre as medidas apresentadas estão novas regras para controle de antimicrobianos e um protocolo de rastreabilidade.
A proposta brasileira prevê acompanhar o animal desde o nascimento até o abate, permitindo comprovar o histórico de utilização de determinadas substâncias durante toda a vida do bovino.
O Brasil também tentou obter um período de adaptação às novas exigências, mas a proposta não foi aceita pela UE.
Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes, todas as empresas associadas e autorizadas a vender para o bloco já aderiram ao protocolo privado elaborado pelo setor.
Auditoria pode definir retomada
A suspensão não tem prazo determinado. Técnicos da União Europeia realizam uma auditoria no Brasil para avaliar principalmente as cadeias produtivas de frango e mel. A inspeção está prevista para terminar nesta sexta-feira (4).
Depois da visita, os resultados serão analisados pelas autoridades europeias. A avaliação pode levar aproximadamente dois meses. Caso o Brasil consiga comprovar o cumprimento das exigências, os produtos poderão voltar à lista de mercadorias autorizadas a entrar no mercado europeu.
Para a carne bovina, entretanto, o processo pode ser mais demorado. Isso ocorre porque o novo sistema de rastreabilidade precisa acompanhar o animal durante todo o ciclo de produção, que pode levar de 24 a 36 meses até o abate.
Setor de frango aposta em retomada rápida
A situação da avicultura é diferente. O ciclo de produção de um frango é de aproximadamente 45 dias, desde o nascimento até o abate.
Por isso, o setor espera que as exportações para a Europa possam ser retomadas ainda em 2026, caso a auditoria apresente resultado favorável.
Enquanto isso, empresas podem buscar outros destinos para a produção que seria enviada à UE. O Brasil comercializa carne de frango com cerca de 150 países, incluindo mercados do Oriente Médio.
Exportações de mel cresceram antes da suspensão
O mel também entrou na lista de produtos bloqueados. No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para a União Europeia chegaram a US$ 6,3 milhões, o dobro do registrado no mesmo período anterior.
O crescimento ocorreu, entre outros fatores, após o aumento de tarifas nos Estados Unidos, o que tornou o mercado europeu mais atrativo para os exportadores brasileiros.
O setor também acompanha a possibilidade de contaminação cruzada, situação que pode ocorrer quando colmeias ficam próximas de áreas onde são criados animais e determinados medicamentos são utilizados.
Mercado interno pode receber parte da produção
A suspensão europeia não impede a produção nem a venda desses produtos dentro do Brasil. Caso mercadorias inicialmente destinadas ao bloco sejam redirecionadas para o mercado nacional, poderá haver aumento da oferta.
Ainda assim, isso não significa que os preços necessariamente cairão. O resultado dependerá da quantidade de produtos que retornar ao mercado brasileiro, do comportamento da demanda e da capacidade de absorção da produção.
A restrição também não se estende automaticamente a todos os países que exportam para a Europa. Argentina, Paraguai e Uruguai, por exemplo, continuam autorizados a vender produtos de origem animal ao bloco.
Enquanto o setor produtivo brasileiro considera a medida protecionista, autoridades europeias sustentam que a decisão está relacionada ao cumprimento de suas normas sanitárias e regulatórias. Agora, o resultado das auditorias e a comprovação das medidas adotadas pelo Brasil serão decisivos para definir quando as exportações poderão ser retomadas.


