Comércio nos bairros ganha força enquanto shoppings e Centro perdem fôlego em Campo Grande

Redação 15/07/2025
Descentralização do varejo transforma a paisagem comercial da capital; empreendedores investem em galerias de bairro, enquanto grandes shoppings enfrentam esvaziamento
A paisagem comercial de Campo Grande está mudando silenciosamente. Após décadas de centralização nas avenidas mais movimentadas e nos grandes shoppings, o comércio tem ganhado novo fôlego nos bairros. Pequenas galerias e centros comerciais vêm se multiplicando nas regiões mais afastadas do Centro, oferecendo alternativas viáveis para quem quer empreender com menos custos e mais proximidade com o cliente.
Exemplo disso é a Rua Spipe Calarge, onde ao menos 13 galerias – algumas ainda em construção – mostram o avanço do comércio de vizinhança. Enquanto isso, grandes empreendimentos como shoppings enfrentam fechamento de lojas e dificuldades para atrair marcas.
Empreender para mudar de vida
Midian Mello é um dos rostos dessa transformação. Depois de 12 anos como vendedora na tradicional Avenida Afonso Pena, ela decidiu abrir sua própria loja de roupas em uma galeria no bairro Aero Rancho, após ficar viúva e precisar sustentar o filho sozinha.
“Comecei vendendo on-line, mas chegou um momento em que precisei de um ponto físico. Encontrei essa sala na galeria e gostei. Estou aqui há dois anos e tem dado certo, graças a Deus”, conta.
A galeria em que ela está instalada abriga mais de 30 estabelecimentos. Os aluguéis, entre R$ 800 e R$ 1.100, são mais acessíveis que no Centro. E a localização, na Avenida Raquel de Queiroz, garante movimento constante.
Para Midian, os principais atrativos do local são a segurança, a praticidade e a rede de apoio entre os lojistas. “Aqui todo mundo se ajuda. Se uma cliente procura sobrancelha, eu indico minha vizinha. Se alguém está com ela e quer roupas, ela manda para mim.”
Apesar de reconhecer a força do e-commerce, Midian aposta no atendimento presencial como diferencial. “Muita gente ainda gosta de tocar no tecido, experimentar. Esse contato é importante.”
Escritório no bairro: mais economia e mais clientes
Depois de mais de três décadas atuando no Centro, o despachante Altair Ferreira também apostou nos bairros. Ele transferiu seu escritório para uma galeria no Jardim Aero Rancho, onde mora.
“Aqui é mais tranquilo, tem estacionamento, segurança e os clientes do bairro vêm até a pé”, compara. Para ele, a decisão foi estratégica: “O Centro está abandonado. Já os bairros estão crescendo e se desenvolvendo.”
Mesmo com serviços especializados, como transferência de veículos e CNH, Altair atrai clientes de fora da região – e até da cidade – graças à confiança construída ao longo dos anos. “Nem tudo pode ser resolvido on-line. Às vezes, a pessoa precisa de orientação.”
Ele também observa que a estrutura da galeria ajuda a movimentar outras lojas: “Enquanto um resolve algo comigo, o acompanhante vai tomar um café, entra numa loja de roupas. Isso movimenta todo mundo.”
Shoppings em crise e Centro esvaziado
Na contramão desse movimento, os shoppings de Campo Grande acumulam prejuízos e lojas fechadas. O Bosque dos Ipês, último shopping inaugurado na cidade (2013), perdeu marcas importantes como Renner, Zara, Forever 21, Saraiva e Le Lis Blanc. O Norte Sul Plaza e o Shopping Campo Grande também sofreram impactos, com o fechamento da Etna e da loja Marisa.
Mesmo assim, o Shopping Campo Grande anunciou uma expansão para 2027, com a promessa de 150 novas operações e a chegada da marca francesa Sephora. Resta saber se o novo momento do consumo permitirá essa retomada.
Comércio central também perde espaço
Lojas fechadas, aluguéis altos e falta de estacionamento tornaram o Centro da Capital menos atrativo. Comerciantes têm reclamado do abandono da região, o que já provocou liquidações e desistência de pontos.
Por outro lado, para a Associação Comercial e Industrial de Campo Grande (ACICG), o fortalecimento do comércio nos bairros representa uma descentralização saudável. “Isso gera empregos locais, fortalece a economia de vizinhança e ajuda a incluir socialmente quem antes dependia de se deslocar longas distâncias”, analisa o presidente Renato Paniago.
Ele destaca que abrir uma loja em bairros demanda menos investimento e oferece melhor custo-benefício para pequenos e médios empreendedores.
Sustentabilidade do modelo e novos desafios
A ACICG avalia que o modelo de pequenos centros comerciais é sustentável, desde que acompanhado de gestão eficiente, infraestrutura urbana e integração com a comunidade.
Entre os benefícios estão a geração de empregos, valorização imobiliária e menor trânsito nas regiões centrais. Já os desafios passam por segurança, transporte público e a ausência de políticas públicas que incentivem o crescimento planejado.
E-commerce cresce, mas não substitui tudo
Outro fator importante na transformação comercial é o avanço do e-commerce. Em 2023, o comércio eletrônico sul-mato-grossense cresceu 266%, alcançando R$ 1,1 bilhão em vendas – desde produtos agropecuários até smartphones. Ainda assim, a presença física mantém sua importância, especialmente para o público que busca experiência e atendimento personalizado.
Enquanto isso, o Índice de Confiança do Empresário do Comércio em Campo Grande caiu para 97,6 pontos em junho de 2025, abaixo da linha de otimismo, segundo a CNC (Confederação Nacional do Comércio).
Investimento mais acessível atrai novos empreendedores
O custo de se manter no Centro tem feito muitos empresários repensarem seus negócios. Uma loja no Jardim dos Estados com 97 m² custa R$ 4.700 por mês. Já uma sala de 40 m² no Carandá Bosque sai por R$ 2 mil. Em bairros como o Tiradentes, uma galeria inteira com cinco lojas de 35 m² custa R$ 1,4 milhão e pode render R$ 6,3 mil mensais em aluguéis.
Frente a esse novo cenário, Campo Grande assiste a uma transformação silenciosa: enquanto grandes centros lutam para manter relevância, pequenos espaços nos bairros constroem, tijolo por tijolo, um novo mapa comercial para a Capital.


