Suspensão de exportações para os EUA derruba preço do boi, mas consumidor ainda não vê carne mais barata

Redação 22/07/2025
Frigoríficos reduzem valores, mas custos e estrutura da cadeia impedem repasse imediato ao consumidor final
Após uma semana do anúncio da suspensão das exportações de carne bovina de Mato Grosso do Sul para os Estados Unidos, o setor já registra queda no preço do boi gordo, mas o consumidor final ainda não sente o reflexo no bolso.
Segundo Alberto Sérgio Capucci, vice-presidente do Sincadems (Sindicato das Indústrias de Frios, Carnes e Derivados de MS), a produção segue normalmente, mas os preços já apresentam recuo. “Os impactos foram nos preços. Nota-se queda em torno de 5% na compra do boi e na venda de carne. Os frigoríficos já estão vendendo mais barato”, relata.
Atualmente, a arroba do boi no Estado está em torno de R$ 296,50 à vista e R$ 300 a prazo, conforme dados do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada). No início da semana, o valor era de R$ 293,90 à vista, uma queda de quase 1% em relação à sexta-feira anterior.
Preço não chega ao consumidor
Apesar da retração, o consumidor final ainda não vê redução nos preços da carne. Para Lucas Miranda Oliveira, proprietário da NFL Food em Campo Grande, o valor final depende de uma cadeia complexa: do pecuarista ao frigorífico, depois ao açougue e só então ao consumidor.
“O mercado está travado. O preço da carne está caindo, o da arroba também, mas nada está sendo repassado ao consumidor final. No açougue não baixa e não vai baixar. Isso depende dos valores praticados pelos grandes frigoríficos”, explica. Segundo ele, o custo da cadeia como um todo continua alto, incluindo combustíveis e embalagens.
Manobra de mercado?
Para Paulo Matos, presidente da Nelore-MS (Associação Sul-Mato-Grossense dos Criadores de Nelore), a queda de preços pode ser uma estratégia dos frigoríficos para pressionar os pecuaristas. “É uma manobra para forçar criadores a vender abaixo do valor justo”, acusa.
Ele ressalta que mesmo com a redução de embarques, o excedente seria pequeno: cerca de 1,6% da produção nacional. “Falar em colapso no mercado interno é, no mínimo, má-fé”, afirma Matos.
Medida americana impacta o setor
A suspensão ocorreu após o governo norte-americano, sob Donald Trump, anunciar taxa de 50% sobre produtos brasileiros a partir de 1º de agosto. Segundo os frigoríficos, a suspensão foi solicitada pelos próprios importadores dos EUA, diante das incertezas causadas pelo tarifaço.
Em 2024, o Brasil exportou R$ 1,3 bilhão em carne bovina para os EUA, o equivalente a 49,6 mil toneladas, representando 17,6% das exportações totais do setor.
Alerta para possível desvalorização
O secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento, Jaime Verruck (Semadesc), alerta para riscos de desvalorização do boi gordo, já que a carne destinada aos EUA pode pressionar o mercado interno.
“A gente não consegue redirecionar esse volume rapidamente para outros mercados. Isso aumenta a oferta interna, o que pode causar queda de preço e afetar os produtores”, ressalta Verruck.


