Troca do caminhar pelo carro faz sedentarismo disparar no Brasil

Redação 18/02/2026
Imagine começar o dia sentado no carro ou no ônibus, passar horas no trabalho também sentado e voltar para casa da mesma forma. Para milhões de brasileiros, essa rotina se repete diariamente e configura o chamado sedentarismo de deslocamento — uma das faces mais preocupantes da inatividade física na vida moderna.
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Diferentemente do sedentário tradicional, que não pratica exercícios, o sedentário de deslocamento pode até frequentar academias ou praticar esportes ocasionalmente, mas passa grande parte do dia sem movimentar o corpo, sobretudo nos trajetos entre casa, trabalho e estudo.
Dados do (IBGE) indicam que cerca de metade dos adultos no país não alcança a recomendação mínima de atividade física da (OMS), que é de 150 minutos semanais de exercícios moderados. Outros levantamentos apontam que esse percentual varia entre 52% e 60%, colocando o Brasil como o quinto país mais sedentário do mundo e o primeiro da América Latina.
O Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas (Vigitel), do Ministério da Saúde, mostrou que, enquanto a prática de atividades físicas no tempo livre cresceu de 30,3% para 36,7% entre 2009 e 2021, a atividade física durante o deslocamento caiu drasticamente, passando de 17% para apenas 10,4%. Isso significa que, apesar de mais pessoas estarem se exercitando no lazer, o movimento no cotidiano diminuiu, mantendo elevados os índices de sedentarismo.
A pandemia de Covid-19 agravou ainda mais esse cenário. Pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz revelou que, durante o período mais crítico da crise sanitária, a proporção de brasileiros que praticavam atividades físicas regulares caiu de 30% para 14%, enquanto o tempo sentado e o uso de telas aumentaram significativamente.
Riscos à saúde

O impacto desse comportamento é expressivo. Estudos mostram que a inatividade física pode dobrar o risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e obesidade. Segundo dados internacionais, a prática insuficiente de exercícios esteve relacionada a mais de 800 mil mortes no mundo em 2019, além de contribuir para o aumento de casos de hipertensão, distúrbios mentais e alguns tipos de câncer, como mama, próstata e cólon.
Planejamento urbano e mobilidade
Especialistas apontam que o desenho das cidades influencia diretamente os níveis de atividade física. A OMS destaca que políticas públicas de mobilidade urbana e planejamento territorial são ferramentas essenciais para estimular deslocamentos ativos, como caminhar e pedalar. No entanto, o crescimento das cidades e a priorização do transporte motorizado ampliaram as distâncias e reduziram as oportunidades de movimento diário.
Em grandes centros urbanos, como São Paulo, pesquisas indicam que 78% da população considera o trânsito o principal fator de estresse da rotina, impactando negativamente a saúde física e mental.
Estudos internacionais mostram que cidades projetadas para incentivar deslocamentos ativos apresentam menores índices de doenças crônicas. Um exemplo são as chamadas “Zonas Azuis”, regiões pesquisadas pelo escritor e explorador Dan Buettner, onde a longevidade está associada a hábitos cotidianos simples, como caminhar e pedalar para realizar tarefas diárias.
Impacto econômico
Além dos prejuízos à saúde, o sedentarismo gera altos custos econômicos. Gastos com tratamentos médicos, afastamentos do trabalho e queda de produtividade sobrecarregam os sistemas públicos e privados. Estimativas internacionais apontam que investimentos em infraestrutura para caminhadas e ciclovias geram retorno significativo em economia de recursos e ganho em qualidade de vida.
Em Londres, por exemplo, políticas públicas que incentivam o transporte ativo podem resultar em economia de até 1,7 bilhão de libras ao sistema de saúde ao longo de 25 anos, além da prevenção de milhares de casos de doenças crônicas.
O cenário reforça a necessidade de repensar a mobilidade urbana no Brasil, transformando os deslocamentos diários em oportunidades reais de promoção da saúde e qualidade de vida.


