Fim da escala 6×1 pode elevar custos no curto prazo, mas trazer ganhos econômicos no futuro, apontam especialistas


Redação 26/02/2026

O avanço da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala de trabalho 6×1 reacendeu o debate sobre seus impactos econômicos e sociais. Encaminhada à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) neste mês, a proposta gera expectativa de mudanças significativas no mercado de trabalho brasileiro.

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Levantamento inédito da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados revela que 63% dos brasileiros apoiam o fim da escala 6×1. Outros 22% são contrários. Entretanto, quando a manutenção dos salários entra em pauta, o apoio cresce: 73% da população se dizem favoráveis caso a redução da jornada não implique em perda salarial.

Para o economista Eduardo Matos, os efeitos da mudança precisam ser analisados sob duas perspectivas: curto e longo prazo. Segundo ele, no início, as empresas devem enfrentar aumento nos custos operacionais, especialmente por conta da necessidade de contratar mais funcionários para manter o nível de produção.

“Com margens apertadas e elevada carga tributária, muitas empresas podem ter dificuldades para absorver esse custo adicional. Isso pode resultar em reajustes de preços, pressionando a inflação e afetando o poder de compra da população”, avalia.

Matos destaca que setores como comércio varejista e indústria seriam diretamente impactados, já que dependem de jornadas contínuas para manter a produtividade. A necessidade de ampliar o quadro de funcionários pode levar a um aumento no custo final dos produtos e serviços.

Apesar dos desafios iniciais, o economista ressalta que, a longo prazo, a medida tende a gerar benefícios macroeconômicos. “Experiências históricas mostram que a ampliação de direitos trabalhistas fortalece o consumo e melhora os indicadores econômicos. Foi assim com a CLT e com o 13º salário”, pontua.

Na mesma linha, o presidente da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Amatra), André Luis Nacer de Souza, avalia que, embora haja impacto inicial nos custos das empresas, não acredita em fechamento de postos de trabalho nem aumento da informalidade.

“Historicamente, o setor produtivo se adapta ao avanço dos direitos sociais. Além disso, a redução da jornada pode gerar ganhos expressivos na saúde, no bem-estar e na convivência familiar dos trabalhadores”, afirma.

Segundo ele, esses efeitos positivos tendem a reduzir gastos públicos com saúde e previdência, trazendo benefícios indiretos ao Estado. Para Nacer, a discussão deve ser ampla e envolver todos os setores da sociedade, incluindo trabalhadores, empregadores, pesquisadores e o poder público.

A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) também defende que qualquer mudança na jornada de trabalho seja fruto de negociação coletiva. O advogado da entidade, Roberto Lopes, alerta que soluções generalizadas podem não atender às especificidades de cada setor.

A PEC nº 148/2015 prevê a ampliação do descanso semanal de um para dois dias, preferencialmente aos sábados e domingos, além da redução da carga horária semanal de 44 para 36 horas, sem contar horas extras. A transição deverá ocorrer de forma gradual ao longo de seis anos.

A proposta foi aprovada pela CCJ em dezembro de 2025 e está pronta para ser analisada pelo plenário do Senado, onde deve ser tratada como uma das prioridades legislativas de 2026.

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