Safra recorde de soja em MS esbarra em custos altos e lucro menor no campo


Redação 20/05/2026

Mesmo com a maior colheita de soja da história de Mato Grosso do Sul na safra 2025/2026, produtores rurais enfrentam margens de lucro cada vez mais apertadas diante da alta dos custos, queda no preço da commodity, juros elevados e restrição no crédito rural.

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De acordo com o Sistema de Informações Geográficas do Agronegócio, o Estado deve colher 17,7 milhões de toneladas de soja, o maior volume já registrado. A produtividade média estimada é de 61,73 sacas por hectare, crescimento de 19,2% em relação ao ciclo anterior.

Apesar da supersafra, o retorno financeiro caiu.

Segundo o analista econômico da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul, Raphael Gimenes, a alta produtividade já não garante rentabilidade.

“Mesmo com boa produtividade, muitos produtores estão obtendo menor margem financeira devido ao aumento simultâneo dos custos de produção e da volatilidade dos preços agrícolas. A rentabilidade no campo não depende apenas da quantidade produzida, mas da relação entre receita, custos e eficiência comercial”, explicou.

Ele destacou que o avanço nos preços de fertilizantes, defensivos agrícolas, frete e demais insumos reduziu de forma significativa o resultado líquido da atividade.

“Nos últimos meses, fatores geopolíticos e oscilações no mercado internacional elevaram tanto o preço das commodities quanto dos insumos. Assim, mesmo com recuperação parcial dos preços da soja e do milho, o avanço dos custos operacionais reduz o resultado líquido da atividade”, afirmou.

Queda no preço da soja pressiona receita

Dados da Granos Corretora mostram que a saca de 60 quilos da soja, que atingiu R$ 178,50 em maio de 2022, caiu para R$ 111,88 em maio deste ano, retração de 37,3%.

Após o pico registrado entre 2021 e 2022, as cotações perderam força:

  • Maio de 2023: R$ 118,63;
  • 2024: leve recuperação para R$ 123,75;
  • 2025 e 2026: nova queda.

O movimento estreitou as margens justamente em um momento em que os custos seguem pressionados.

Fertilizantes disparam

Levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento aponta que o fertilizante NPK 04-30-10, um dos mais usados nas lavouras sul-mato-grossenses, saltou de R$ 3.355 para R$ 5.544 por tonelada entre março de 2025 e março deste ano — alta de 65,2%.

Outros insumos também avançaram:

  • Calcário dolomítico: +9,9%;
  • Gesso agrícola: +11,4%.

Cenário exige cautela

Para o analista da Aprosoja-MS, Linneu Borges, o momento exige planejamento rigoroso diante das incertezas globais.

“O momento é de grande cautela. As condições globais estão voláteis e qualquer mudança gera efeito direto ao produtor, que acaba refém de decisões externas”, avaliou.

Segundo ele, o aumento no preço do petróleo, fertilizantes e as dificuldades no crédito rural tornam essencial uma estratégia financeira sólida para os próximos ciclos.

Milho perde espaço na segunda safra

Enquanto o custo da soja teve alta moderada, próxima de 2% entre as duas últimas safras, o milho registrou aumento de cerca de 8%, tornando o cultivo menos atrativo.

Os reflexos já aparecem no campo: o milho safrinha ocupa atualmente cerca de 48% da área cultivada com soja em Mato Grosso do Sul, percentual abaixo dos 71% registrados em anos anteriores, abrindo espaço para outras culturas no período de segunda safra.

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