Brasil consegue avanços na proteção da biodiversidade, mas financiamento ainda preocupa

Redação 02/11/2026
O Brasil teve participação importante nas negociações internacionais sobre a proteção da biodiversidade durante a COP17, em Yerevan. O documento final, chamado de Caminho de Yerevan, foi publicado após consenso alcançado na madrugada de sábado (31) e estabeleceu novos compromissos entre os países para avançar na preservação da natureza.
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A decisão ocorreu após a primeira revisão do Marco Global de Kunming-Montreal (GBF, na sigla em inglês) apontar que os esforços internacionais ainda são insuficientes para cumprir as 23 metas estabelecidas até 2030.
Para Karen Oliveira, diretora de Políticas Públicas e Relações Governamentais da The Nature Conservancy Brasil e integrante da delegação brasileira, a conferência representou uma oportunidade de corrigir os rumos das políticas ambientais, com avanços em financiamento, monitoramento e participação de povos indígenas e comunidades locais.
Apesar dos resultados, a especialista avalia que questões fundamentais ainda ficaram sem definições concretas, principalmente o volume de recursos destinados à conservação, o funcionamento do Fundo Cali, a reforma de subsídios prejudiciais à natureza e a responsabilização dos países pelos resultados.
Financiamento da biodiversidade
Entre os principais acordos está a possibilidade de ampliar voluntariamente o grupo de países que contribuem financeiramente para a proteção da biodiversidade. Atualmente, os recursos são fornecidos principalmente por países desenvolvidos, mas a proposta abre espaço para economias como China, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
Também foi acordada uma revisão formal do Fundo Global para a Biodiversidade (GBFF) e do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), além da construção de uma estrutura mais eficiente para financiar ações de conservação em diferentes partes do mundo.
Durante a COP17, a presidência da conferência anunciou que os compromissos financeiros assumidos por governos, instituições multilaterais, organizações filantrópicas e iniciativas privadas ultrapassaram US$ 1,8 bilhão.
Reforma de subsídios ainda enfrenta obstáculos
A especialista em políticas de biodiversidade do Greenpeace Internacional, An Lambrechts, destacou que as promessas feitas durante a conferência representam boas intenções, mas não resolvem problemas como a falta de financiamento, o endividamento dos países e a necessidade de eliminar incentivos econômicos que prejudicam o meio ambiente.
Nesse tema, os avanços foram limitados. Como resultado, foi criado um grupo de trabalho para buscar a transformação de pelo menos US$ 500 bilhões em subsídios atualmente destinados a atividades prejudiciais à natureza em incentivos positivos para a biodiversidade.
Fundo Cali continua em discussão
Criado durante a COP16, em 2024, o Fundo Cali prevê reunir contribuições de empresas que utilizam informações de sequenciamento genético de espécies da natureza no desenvolvimento de produtos, como ocorre nos setores farmacêutico e de cosméticos.
Entretanto, a implementação do mecanismo ainda enfrenta dificuldades. Segundo An Lambrechts, grandes empresas multinacionais atuaram para manter a adesão voluntária ao fundo e impedir avanços na sua operacionalização durante a COP17.
A especialista criticou a baixa contribuição das grandes corporações para a preservação ambiental, apesar dos lucros obtidos com a exploração de recursos naturais.
Brasil consegue incluir proposta sobre uso sustentável
Uma das conquistas da delegação brasileira foi a inclusão de uma proposta para fortalecer o uso sustentável da biodiversidade e garantir a repartição justa dos benefícios provenientes dos recursos genéticos.
O tema foi incorporado à agenda da convenção, no artigo que trata de atividades, produtos e serviços que geram resultados positivos para a natureza. A partir disso, deverão ser realizadas consultas aos países, povos indígenas e comunidades locais, além da apresentação de alternativas para fortalecer a implementação dessas medidas.
Para Michel Santos, gerente de políticas públicas do WWF-Brasil, o avanço reconhece a importância de ampliar essa dimensão da convenção e permite desenvolver propostas que poderão orientar um futuro programa de trabalho.
Conectividade ecológica também entrou no debate
Outra pauta defendida pelo Brasil foi a conectividade ecológica, que prevê a criação de corredores verdes e azuis para permitir o deslocamento das espécies e fortalecer a conservação dos ecossistemas.
A intenção inicial era incluir um quinto elemento no Programa de Trabalho sobre Áreas Protegidas (PoWPA). Embora a proposta não tenha avançado nesse formato, o assunto foi mencionado no documento final, permitindo que as discussões continuem nas próximas negociações internacionais.
Michel Santos ressaltou que a conservação precisa caminhar junto com o uso sustentável dos recursos naturais, garantindo benefícios sociais, econômicos e ambientais e respeitando os direitos e conhecimentos dos povos indígenas e comunidades tradicionais.



