Saída de especialistas interrompe cirurgias cardíacas pediátricas na Santa Casa


Redação 03/09/2026

A Santa Casa de Campo Grande deixou de realizar cirurgias cardíacas pediátricas de alta complexidade após a saída dos profissionais que integravam a equipe responsável pelos procedimentos. O desligamento ocorreu nesta quinta-feira (3), em meio a uma crise financeira e operacional que afeta o hospital há mais de um mês.

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A equipe era a única especializada nesse tipo de atendimento em Mato Grosso do Sul e realizava procedimentos de alta complexidade, inclusive em bebês recém-nascidos. Com a interrupção do serviço, pacientes infantis que necessitarem de operações cardíacas complexas poderão precisar ser transferidos para hospitais de outros estados.

Segundo informações apuradas, os médicos estavam há aproximadamente quatro meses sem receber pelos serviços prestados. A falta de pagamentos, somada à escassez de materiais e insumos necessários para a realização das cirurgias, teria contribuído para a decisão dos profissionais de deixar a unidade.

A saída da equipe aumenta a preocupação em relação aos casos que exigem atendimento especializado. Atualmente, a Santa Casa não dispõe de profissionais para executar determinados procedimentos cardíacos pediátricos de maior complexidade. Em situações emergenciais, será necessário avaliar a transferência dos pacientes para outras unidades, inclusive fora de Mato Grosso do Sul.

O hospital informou que os serviços de urgência e emergência seguem funcionando normalmente. Por outro lado, os atendimentos ambulatoriais e as cirurgias eletivas continuam interrompidos.

Atrasos nos pagamentos

A própria Santa Casa já havia admitido o atraso nos pagamentos de profissionais contratados como pessoas jurídicas e autônomos. Em comunicado divulgado na quarta-feira (2), a instituição informou que esses trabalhadores estavam há quatro meses sem receber.

Segundo o hospital, as equipes médicas já haviam sinalizado que poderiam deixar a instituição diante da situação financeira. Mesmo assim, os profissionais continuaram trabalhando por um período para evitar que os pacientes ficassem sem assistência.

A instituição ressaltou que a equipe de cirurgia cardíaca pediátrica era a única com essa especialização disponível no estado.

Escassez de materiais agrava situação

Além dos problemas financeiros, relatos apontam dificuldades para obter materiais e insumos utilizados em procedimentos médicos, principalmente nas cirurgias consideradas mais complexas.

A falta de recursos já havia sido denunciada em agosto. Na ocasião, o vereador e médico Dr. Lívio Leite descreveu a situação do hospital como preocupante e afirmou que procedimentos estavam sendo interrompidos por falta de condições para sua realização, incluindo cirurgias cardiovasculares.

Desde 29 de julho, a Santa Casa mantém suspensos os atendimentos ambulatoriais e os procedimentos eletivos. A paralisação atingiu tanto cirurgias cardíacas de adultos quanto de crianças.

Pacientes que aguardavam operações também foram afetados. Entre os casos relatados está o de uma técnica de enfermagem, de 34 anos, que permanecia acamada havia cerca de dez meses e teve uma cirurgia no quadril adiada durante o período de suspensão.

Outro paciente que aguardava uma operação ortopédica também enfrentou dificuldades para realizar o procedimento. Conforme denúncia divulgada anteriormente, a unidade teria informado a falta de equipamentos. Posteriormente, a Santa Casa reconheceu que a ausência de materiais essenciais vinha prejudicando principalmente procedimentos da área de ortopedia.

Funcionários também protestaram

Os atrasos não ficaram restritos aos profissionais médicos. No começo de agosto, mais de 100 trabalhadores participaram de uma manifestação em frente à instituição para cobrar salários atrasados. Entre os participantes estavam funcionários da enfermagem, limpeza e de outros setores.

Paralelamente, a Santa Casa enfrenta uma discussão sobre o financiamento dos atendimentos realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O hospital afirma registrar um déficit mensal de aproximadamente R$ 13 milhões e defende a atualização dos valores repassados pelos serviços prestados.

Uma perícia judicial independente foi determinada para avaliar as contas da instituição e verificar a situação econômico-financeira do contrato mantido para atendimento pelo SUS.

A Santa Casa foi novamente procurada nesta quinta-feira (3) para comentar a saída da equipe de cirurgia cardíaca pediátrica e os impactos da medida, mas ainda não havia apresentado resposta até a publicação.

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